[Savitri Devi - "O Relâmpago e o Sol"] (4)
Abaixo, a quarta postagem da tradução em desenvolvimento do livro “O Relâmpago e o Sol”, de Savitri Devi – cortesia da ATWA Brasil.
A suposta “humanidade” dos nossos contemporâneos (em comparação com seus antepassados) é apenas uma falta de coragem ou falta de sentimentos fortes – um aumento de covardia, ou uma crescente apatia.
O homem moderno é escrupuloso sobre as atrocidades – até mesmo sobre a brutalidade comum, sem imaginação – apenas quando os objetivos para os quais as ações atrozes ou simplesmente brutais são executadas são odiosas ou indiferentes com relação a ele. Em quaisquer outras circunstâncias, ele fecha os seus olhos para quaisquer horrores – especialmente quando ele sabe que as vítimas nunca podem retaliar (como é o caso com todas as atrocidades cometidas pelo homem contra os animais, para qualquer fim que seja), e ele exige, no máximo, que não seja lembrado delas com muita frequência ou convicção. Ele reage como se houvesse classificado as atrocidades sob duas categorias: as “inevitáveis” e as “evitáveis”. As “inevitáveis” são aquelas que servem ou deveriam servir para a finalidade do homem moderno – em geral: “o bem da humanidade” ou o “triunfo da democracia”. Elas são toleradas, ou melhor, justificadas. As “evitáveis” são aquelas que são ocasionalmente cometidas, ou supostamente cometidas, por pessoas cujo objetivo é alheio ao seu. Só elas são condenadas, e seus autores reais ou supostos – ou inspiradores – são marcados pela opinião pública como “criminosos contra a humanidade”.
Quais são, afinal, os sinais dessa suposta “humanidade” maravilhosa do homem moderno, de acordo com aqueles que acreditam no progresso? Já não temos hoje em dia – eles dizem – as execuções horríveis dos tempos antigos; traidores não são mais “enforcados e esquartejados”, como era costume na gloriosa Inglaterra do século XVI; qualquer coisa que se aproxime da crueldade da tortura e execução de François Damien, na praça central de Paris, diante de milhares de pessoas vindas com o propósito de vê-lo, em 28 de maio de 1757, seria impensável na França moderna. O homem moderno também não defende a escravidão, nem ele (em teoria, pelo menos) justifica a exploração das massas sob qualquer forma. E suas guerras – até mesmo suas guerras, monstruosas como podem parecer, com seus aparatos elaborados de máquinas demoníacas – estão começando a admitir, no seu código (ou assim se diz), certa quantidade de humanidade e justiça. O homem moderno é horrorizado pelo simples pensamento sobre os hábitos dos povos antigos durante períodos de guerra – como o sacrifício de doze jovens troianos sob o herói grego Pátroclo, para não falar dos menos antigos, mas mais atrozes sacrifícios dos prisioneiros de guerra do deus da guerra asteca, Huitzilopochtli (mas os astecas, apesar de relativamente modernos, não eram cristãos, nem, pelo que sabemos, crentes no progresso como um todo). Finalmente – dizem – o homem moderno é mais amável, ou menos cruel, com relação aos animais do que seus antepassados eram.
Uma enorme quantidade de preconceito em favor de nosso tempo pode permitir que pessoas sejam conquistadas por tais falácias.
Certamente, o homem moderno não “defende” a escravidão; ele a denuncia com veemência. Mas ele a pratica, no entanto – e em maior escala do que nunca, e com muito mais planejamento do que os antigos jamais poderiam – tanto no Ocidente capitalista como nos trópicos, ou (do que se ouve fora de seus muros impenetráveis) mesmo no único Estado que supostamente é, hoje, o “paraíso dos trabalhadores”. Existem diferenças, claro. Na Antiguidade, até mesmo o escravo tinha horas de lazer e alegria que eram propriedade dele; ele tinha seus jogos de dados, à sombra das colunas do pórtico de seu mestre, suas piadas grosseiras, suas conversas, sua vida livre fora de sua rotina diária. O escravo moderno não tem o privilégio da vadiagem, de estar totalmente despreocupado, nem que seja por meia hora. Seu suposto lazer é cheio de entretenimento compulsório, tão exigente e muitas vezes tão triste quanto o seu trabalho, ou – na “terra da liberdade” – envenenado por preocupações econômicas. Mas ele não é abertamente comprado e vendido. Ele é apenas tomado. E tomado não por um homem que, de alguma forma, é pelo menos superior a si mesmo, mas por um gigantesco sistema impessoal, sem qualquer corpo para se chutar, ou uma alma para amaldiçoar, ou uma cabeça para responder por suas ofensas.
E da mesma forma, antigos horrores certamente desapareceram dos registros dos chamados homens civilizados, com relação à justiça e às guerras. Mas novos e piores horrores, desconhecidos nos tempos “bárbaros”, apareceram em seu lugar. Um exemplo simples é arrepiador o suficiente para comprovar isso. O julgamento prolongado não de criminosos, não de traidores, nem regicidas, nem magos, mas dos melhores personagens líderes da Europa; a sua condenação injusta, depois de meses e meses de todo os tipos de humilhação e tortura sistemática moral; e o seu enforcamento final, da forma mais lenta e cruel possível – aquela farsa sinistra, encenada em Nuremberg, em 1945-1946 (e 1947) por um bando de covardes e hipócritas vitoriosos, é incomensuravelmente mais nojenta do que todos os sacrifícios humanos de pós-guerra do passado unidos em um, inclusive aqueles realizados de acordo com o conhecido ritual mexicano. Porque pelo menos lá, por mais doloroso que possa ter sido o processo tradicional de matar, as vítimas eram francamente levadas à morte para o deleite do deus tribal dos vencedores e dos próprios vencedores, sem qualquer pretensão macabra de estabelecer “justiça”. E eles eram, aliás, escolhidos de todas as fileiras de combatentes capturados, e não malignamente selecionados da elite do seu povo. Nem a elite do povo vencido representava, na maioria dos casos – como de fato ocorreu no julgamento da vergonha dos nossos tempos progressivos – a própria elite do seu continente.
Quanto às atrocidades impensáveis como as que ocorreram na França e na Espanha, e em muitos outros países a partir da Idade Média, pode-se encontrar um grande número de episódios da recente guerra civil espanhola – para não mencionar o registro não menos impressionante dos horrores realizados, ainda mais recentemente, pelos “heróis” da resistência francesa durante a Segunda Guerra Mundial – que são tão horríveis quanto e, muitas vezes, ainda piores.
Curiosamente – embora eles digam que “odeiam essas coisas” – um número considerável de homens e mulheres de hoje, quando falta a coragem para cometer atos horríveis, pessoalmente, parecem estar dispostos como sempre a assisti-los sendo realizados ou, pelo menos, a pensar sobre e regozijá-los, apreciando-os de forma indireta, se negado o prazer mórbido de ver. Essas são as pessoas que, na Inglaterra moderna, se unem diante das portas da prisão sempre que um homem está para ser enforcado, esperando só Deus sabe que tipo de emoção doentia pelo simples fato de ler o anúncio de que “a justiça foi feita” – pessoas que, se apenas dadas uma oportunidade, correriam para assistir uma execução pública, ou melhor, uma queima pública de bruxas ou hereges, com certeza tão rapidamente quanto seus antepassados uma vez fizeram. Esses também são os milhões de pessoas, considerados “civilizados” e aparentemente bondosos, que se revelam de forma tão clara logo que uma guerra eclode, ou seja, tão logo eles se sentem incentivados a mostrar o tipo mais repugnante de imaginação nas descrições competitivas sobre o que “infligiriam” aos líderes do inimigo, se ele – ou mais frequentemente ela – tivesse irrestrita liberdade para agir. Tais são, no fundo, aqueles que tripudiam sobre o sofrimento do inimigo morto após uma guerra vitoriosa. E são milhões deles: milhões de selvagens vicários, desprezíveis e ao mesmo tempo cruéis, a quem os guerreiros da chamada idade do “barbarismo” teriam completamente desprezado.
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