[Savitri Devi - "O Relâmpago e o Sol"] (5)
Abaixo, a quinta postagem da tradução em desenvolvimento do livro “O Relâmpago e o Sol”, de Savitri Devi – cortesia da ATWA Brasil.
Mas o mais covarde e hipócrita, talvez, do que qualquer outra coisa, é o comportamento “progressista” do homem moderno com relação à Natureza viva, e particularmente com relação ao reino animal. Falei sobre isso extensamente em outro livro, e vou, portanto, aqui, me contentar a sublinhar alguns fatos.
O homem primitivo – e, muitas vezes, também, o homem cuja civilização não é nada “moderna” – é ruim o bastante, é verdade, com relação ao seu tratamento dos animais. Basta viajar aos países menos industrializados do sul da Europa, ou ao Próximo e Médio Oriente, para adquirir uma certeza muito clara sobre este ponto. E nem todos os líderes modernos têm sido igualmente bem sucedidos em colocar um fim a essa antiga e burra crueldade, seja no Oriente ou no Ocidente. Gandhi não pôde, em nome daquela bondade universal que ele repetidamente anunciava como o princípio essencial da sua fé, evitar que os homens hindus matassem de fome deliberadamente os seus bezerros machos, a fim de vender algumas pintas extras de leite de vaca. Mussolini não conseguiu detectar e lidar com todos os italianos que, sob seu governo, persistiram com o hábito detestável de depenar frangos vivos sob o fundamento de que “as penas saem mais facilmente”. Não há como fugir do fato de que a bondade com os animais em escala nacional não depende dos ensinamentos de qualquer religião ou filosofia. É uma das características distintivas das raças verdadeiramente superiores. E nenhuma alquimia religiosa, filosófica ou política pode transformar metais comuns em ouro.
Isso não significa que um bom ensino não possa ajudar a trazer o melhor de cada raça, assim como em cada homem ou mulher individualmente. Mas a civilização industrial moderna, na medida em que ela é centrada no homem – e não controlada por qualquer inspiração de um modo super-humano, cósmico – e tende a enfatizar a quantidade em detrimento da qualidade, produção e riqueza em vez do caráter e valor intrínseco, é tudo menos conveniente para o desenvolvimento de uma bondade universal consistente, mesmo entre as melhores pessoas. Ela esconde a crueldade. Ela não faz nada para suprimi-la, ou até mesmo para diminuí-la. Ela perdoa, ou melhor, exalta qualquer atrocidade contra os animais que seja direta ou indiretamente relacionada com ganhar dinheiro, dos horrores diários dos abates dos matadouros ao martírio dos animais nas mãos do circo, do caçador ao vivisseccionista. Naturalmente, o “maior” interesse dos seres humanos é apresentado como justificativa – sem que as pessoas percebam que o homem que está disposto a comprar entretenimento ou luxo, “comidas saborosas”, ou mesmo informações científicas e meios de curar doentes, já não é mais digno de estar vivo. O fato é que nunca houve tamanha degeneração e doenças de todos os tipos de descrições entre os homens quanto neste mundo de vacinação obrigatória (ou quase obrigatória) e inoculação; este mundo que exalta os criminosos contra a Vida – carrascos de seres vivos inocentes para fins do homem, tais como Louis Pasteur – considerado entre os “grandes” homens, embora tenha condenando os realmente grandes, que se esforçaram para destacar a sagrada hierarquia das raças humanas diante da hierarquia óbvia de todos os seres, e que, aliás, construíram o único Estado no Ocidente cujas leis de proteção dos animais lembravam, pela primeira vez depois de séculos (e na medida em que foi possível em um país industrial moderno de clima frio), os decretos do imperador Asoka e Harshavardhana.
Esse mundo pode muito bem se vangloriar de seus cuidados com cães e gatos e animais de estimação em geral, enquanto tentando esquecer (e tentando fazer as melhores civilizações esquecerem) o fato hediondo de que um milhão de criaturas passa por vivissecção anualmente somente na Grã-Bretanha. Mas não é possível nos fazer esquecer dos seus horrores escondidos e nos convencer de seu “progresso” quanto à bondade para com os animais, tanto quanto à sua bondade crescente para com as pessoas “independentemente do seu credo”. Nós nos recusamos a ver nela outra coisa senão a prova viva mais escura daquilo que os hindus têm caracterizado desde tempos imemoriais como “Kali Yuga” – a “Idade das Trevas”, a Era da Melancolia, a última (e, felizmente, a mais curta) subdivisão do atual ciclo da história. Não há nenhuma esperança de “colocar as coisas em ordem” em tal fase. Essa é, essencialmente, a fase descrita com tanta força embora laconicamente no Livro dos livros – o Bhagavad-Gita – como aquela em que “da corrupção das mulheres nasce a confusão das castas; da confusão das castas, a perda da memória; da perda da memória, a falta de compreensão; e deste último, todos os outros males”; a fase em que a mentira é chamada de “verdade” e a verdade é perseguida como falsidade ou ridicularizada como loucura; em que os expoentes da verdade, os líderes divinamente inspirados, os verdadeiros amigos de sua raça e de toda a vida – os homens como Deus – são derrotados, e seus seguidores humilhados e sua memória caluniada, enquanto os mestres das mentiras são tidos como “salvadores”; a fase em que cada homem e mulher está no lugar errado, e o mundo é dominado por indivíduos inferiores, raças bastardas e doutrinas viciosas, tudo parte integrante de uma ordem inerente de feiúra muito pior do que a completa anarquia.
Esta é a fase em que os nossos democratas triunfantes e os nossos orgulhosos comunistas ostentam o “progresso lento, mas constante, por meio da ciência e da educação”. Muito obrigado por tal “progresso”! A simples visão de tal “progresso” é suficiente para confirmar-nos na nossa crença na teoria cíclica da história imemorial, ilustrada nos mitos de todas as antigas religiões naturais (incluindo aquela através da qual os judeus – e, através deles, os seus discípulos, os cristãos – derivam a história simbólica do Jardim do Éden; Perfeição no começo do Tempo). Impressiona-nos o fato de que a história humana, longe de ser uma ascensão constante para o melhor, é um processo cada vez mais desesperado de emasculação, abastardamento e desmoralização da humanidade; uma “queda” inexorável. Ela desperta em nós o desejo de ver o fim – a queda final, que vai empurrar para o esquecimento tanto os inúteis “ismos” que são produto da decadência do pensamento e de caráter, e as não menos inúteis religiões de igualdade que lentamente tem preparado o terreno para eles; a vinda de Kalki, o Destruidor divino do mal; a aurora de um novo ciclo que se abre, como todos os ciclos de tempo sempre fizeram, com uma nova “Era Dourada”.
Não importa quão sangrenta a queda final possa ser! Não importam os tesouros antigos que podem perecer para sempre nesse incêndio! Quanto mais cedo ele vier, melhor. Estamos esperando por isso – e para as glórias que se seguirão – confiantes na lei cíclica divinamente estabelecida que rege todas as manifestações da existência no tempo: a lei do eterno retorno. Estamos esperando por ele, e para o triunfo posterior da Verdade perseguida hoje; pelo triunfo, sob qualquer nome, da única fé em harmonia com as leis eternas do ser; do único “ismo” moderno, que de “moderno” tem muito pouco, sendo apenas a mais recente expressão de princípios tão antigos quanto o Sol; o triunfo de todos os homens que, ao longo dos séculos e hoje, nunca perderam a visão da Ordem eterna, decretada pelo Sol, e que têm lutado com um espírito altruísta para expor essa visão aos demais. Estamos aguardando a restauração gloriosa, desta vez, em escala mundial, da Nova Ordem; a projeção no tempo, na próxima assim como em todas as recorrentes “Eras Douradas”, da Ordem eterna do Cosmos.
Essa é a única coisa para a qual vale a pena viver – e morrer, se for dado esse privilégio – agora, em 1948.
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© 2011 ATWA Brasil

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[Savitri Devi - "O Relâmpago e o Sol"] (6) | ATWA Brasil disse isso em fevereiro 14th, 2011 at 15:07