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Seria Charles Manson vítima de uma armação?

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Não é necessário procurar muito para encontrar desinformação sobre Charles Manson e o seu caso – as informações, hora fraudulentas, hora simplesmente ignorantes, chegam aos curiosos com muita facilidade. A verdadeira dificuldade está em encontrar fatos e informações legítimas, e essa guerra contra as mentiras é um dos comprometimentos da ATWA Brasil.

Nesse contexto, qualquer artigo jornalístico que apresente discussões reais ao invés de simplesmente reproduzir a “história oficial” que foi vendida ao público, resultando na criação de um monstro chamado Charles Manson (o “homem vivo mais perigoso” do planeta, como colocou a revista americana Rolling Stone em sua edição número 61), é um trabalho a ser considerado.

Um desses artigos é o publicado por Jon C. Hopwood em 16 de julho de 2008, intitulado “Seria Charles Manson vítima de uma armação?” (o título original, em inglês, é “Was Charles Manson Framed?”) Apesar das confusões do autor, que tende a encarar os fatos da “história oficial” com alguns questionamentos ao invés de esquecê-la por inteiro e evidenciar os fatos concretos que a derrubam, o artigo serve para ilustrar a ilegitimidade do julgamento que condenou Charles Manson – os acordos a portas fechadas que contornaram a lei e determinaram a sentença final.

O artigo completo escrito por Jon C. Hopwood tem 13 páginas. Abaixo, algumas passagens traduzidas que resumem o espírito do texto, e devem ser consideradas ao pensar em Charles Manson:

“Embora Charles Manson realmente não tenha participado diretamente nos assassinatos, e de fato nunca ter sido provado em um tribunal que ele tenha matado alguém, o promotor de Los Angeles, Vincent Bugliosi, conseguiu lhe acusar como o líder dos assassinos e indiciá-lo sob o conceito de culpabilidade contingente, segundo o qual ele era tão culpado pelos assassinatos quanto os próprios agressores. Ele também foi condenado por conspiração para cometer assassinatos – conspiração sendo uma manta popularizada na repressão a sindicatos e comunistas na época. Quando todo o resto falha, pegue-os em uma conspiração. Charlie negou ter ordenado os assassinatos, e muitos aficionados pensam que há boas razões para acreditar que ele foi vítima de uma armação.”

“[Charles] Tex Watson, que em um sentido tático era o verdadeiro chefe dos assassinatos, havia fugido para o Texas, e foi julgado separadamente devido às exigências de extraditá-lo de lá – pelo menos isso é o que o gabinete do Procurador de Los Angeles disse. Em vez de esperar para que o Texas devolvesse o seu belo exemplo de um filho nativo para a ensolarada Califórnia, o Ministério Público decidiu avançar com o julgamento de [Susan] Atkins, [Charles] Manson, [Patricia] Krenwinkel e [Leslie] Van Houten, com Linda Kasabian como sua principal testemunha, e não se preocupou com as enormes despesas de ter que julgar Tex Watson separadamente. Para você ver, se Tex Watson tivesse sido julgado juntamente com Charles Manson, o defensor público de Manson, Irving Kanarek, poderia ter sido capaz de transferir a culpa para Tex Watson, o homem que realmente liderou ambos os assassinatos.”

“Quando se considera a moralidade de Vincent Bugliosi [o promotor que condenou Charles Manson], considere isso: quando Linda Kasabian, que teria fugido da “Família” após o assassinato da família LaBianca, rendeu-se em Concord, em New Hampshire, e foi extraditada de volta para a Califórnia, seu advogado tentou fazer um acordo com Bugliosi. Ele recusou firmemente. Isso porque ele tinha Susan Atkins, mais conhecida como Sadie Mae Glutz, para testemunhar ao Ministério Público – ela agora como testemunha do estado perante o júri que proferiu as acusações de assassinato. Quando Atkins empacou e retirou seu testemunho do júri de inquérito, Bugliosi retornou ao advogado de Kasabian para negociar. Em seu resumo no julgamento, Bugliosi – que originalmente não queria nada com Linda Kasabian porque tinha Susan Atkins como sua “testemunha especial” – passou a elogiá-la.”

“Quando se lê o que aconteceu em Cielo Drive [a casa alugada pelo casal Polanski em que os assassinatos aconteceram] naquela noite, deixando de lado o cenário de “Helter Skelter” proposto por Vincent Bugliosi, não é provável considerar se o que Tex Watson e as meninas estavam realmente empenhados era um caso de roubo com invasão de domicílio? Que quando Jay Sebring [amigo de Sharon Tate] estendeu as mãos para roubar a arma de Tex, sendo então baleado na axila e levando um chute no rosto, somente nesse momento o crime se transformou em um frenesi de assassinatos?”

“Quando se analisa as transcrições do julgamento, surge a pergunta: foi a morte de Sharon Tate, de seu filho ainda não nascido, e de seus três amigos realmente planejada, como alegou Bugliosi, ou foi uma questão de mais uma vez Tex ter perdido a cabeça, como aconteceu nos casos com Gary Hinman e Lotsapoppa? Nós nunca saberemos, uma vez que a exclusão de Tex Watson do julgamento impossibilitou que o advogado de Manson, Kanarek, fosse capaz de levantar essa questão, embora ele tenha requerido isso durante o julgamento dos demais envolvidos no caso e alegado que as garotas estavam apaixonadas por Tex Watson.”

“Em teoria, o réu é inocente até provado culpado num caso criminal além de uma dúvida razoável. Ao manter Tex Watson fora do julgamento, não teria Bugliosi planejado tal coisa de modo a minimizar as dúvidas que os advogados dos réus poderiam produzir nas mentes dos jurados?”

“A teoria de “Helter Skelter” de Vincent Bugliosi, com [Charles] Manson como um “guru do amor” pregando um Armagedom racial no deserto, parece tão inacreditável quanto as teorias de conspiração sobre John F. Kennedy que Bugliosi ilustra em seu tomo de mais de 1600 páginas, chamado “Reclaiming History”, escrito como parte de sua participação no show business. Ele tinha começado originalmente investigando o assassinato como parte de um programa especial da rede de televisão BBC, que seria palco de uma simulação de julgamento de Lee Harvey Oswald, o homem acusado pela Comissão Warren de ter sido o único assassino no caso. O livro sobre o assassinato de JFK, em que Bugliosi faz a estranha afirmação que Lee Harvey Oswald foi provado ser um assassino solitário para além de qualquer dúvida razoável, foi adquirido por Tom Hanks para ser feito em uma minissérie da HBO. Nem mesmo Arlen Specter, o autor da teoria da “bala mágica”, afirmaria tal coisa. [...]Isso teve de ser escrito para mostrar que Vincent Bugliosi, autor do cenário de “Helter Skelter”, é um admirador de outros fantasistas da lei.”

“O trabalho de Bugliosi foi enviar Charles Manson e sua suposta “Família” para a câmara de gás, e ele fez isso com grande entusiasmo. Isso o fez, como ele sabia que seria, um homem de sucesso em termos de reputação e finanças. Ele ofereceu ao mundo a sua versão da “bala mágica” – nesse caso, chamada de “Helter Skelter” – e sem Tex Watson no julgamento, não houve argumento de compensação para refutá-lo. Combinando isso com o advogado ruim de Charles Manson e a sua própria aceitação fatalista de que seria “condenado pelo sistema”, a estratégia se provou um sucesso.”

“No entanto, os “massacres de Manson” se tornaram tão infames em parte devido ao manuseio hábil de Vincent Bugliosi durante o caso e através dos meios de comunicação como promotor de justiça – e devido ao seu livro “Helter Skelter”, o maior best-seller de literatura de crime na história. Todos os membros condenados da suposta “Família Manson” (um termo que Charles Manson nunca utilizou, mas que Bugliosi popularizou) têm tido seus pedidos de liberdade condicional repetidamente negados desde que suas sentenças de morte foram comutadas.”

“O que abriu meus olhos sobre o fato de “Helter Skelter” ser um saco de mentiras elaborado por Vincent Bugliosi é o fato de Virginia Graham, a mulher que misteriosamente ouviu a confissão de Sadie Mae [antes do caso se tornar popular] e alertou as autoridades, ter realmente visitado 10050 Cielo Drive [a casa alugada pelo casal Polanski]. Graham era uma prostituta de carreira, presa por um cheque sem fundo. Quais são as chances de um prisioneiro que tenha visitado a cena de morte se encontrar na mesma cela de um suspeito da chacina? A polícia de Los Angeles e a promotoria do caso, obviamente, sabiam mais – e num momento muito anterior – do que Bugliosi nos fez saber. Virginia Graham foi obviamente plantada naquela cela para obter uma confissão de Susan Atkins.”

“No outono de 1969, Virginia Graham conheceu Susan Atkins no Instituto Sybil Brand para Mulheres. Graham era uma prostituta de 36 anos presa por ter passado um cheque sem fundo. Ambas, Graham e Atkins, serviram como “mensageiras” para os guardas da prisão, o que lhes deu a oportunidade de se conhecerem nos corredores. O fato de um prisioneiro ser mensageiro indica um nível de fidelidade, o que sugere que Graham estava em conluio com as autoridades da prisão, e que a recém-chegada Atkins – dificilmente o tipo de pessoa que receberia um cargo de confiança na prisão – tinha sido armada para uma confissão. Atkins havia sido detida sob suspeita de ter participado no assassinato de Gary Hinman, a primeira morte atribuída à suposta Família Manson. [...]Junto com o testemunho de Linda Kasabian, que muitos acreditam ter realmente participado dos assassinatos, foi o testemunho de Graham que deu a Vincent Bugliosi os elementos necessários para conseguir uma condenação por homicídio.”

“O problema de confissões de dentro da prisão para informantes da polícia é que é fácil para um informante obter informações sobre um criminoso e o crime e simplesmente fabricar uma confissão. Além disso, há ainda um incentivo para o informante para fazer isso: eles recebem tratamento especial das autoridades, e talvez até sua libertação.”

“O cenário de “Helter Skelter” de Vincent Bugliosi e sua descrição da “Família Manson” como vítimas de Charles Manson foi parcialmente motivada pelo seu desejo de reduzir a culpabilidade da sua testemunha especial, Linda Kasabian, aos olhos do júri. Como Bugliosi admitiu em seu somatório final, Kasabian foi igualmente culpada pelos assassinatos, de acordo com a lei da Califórnia. (Ela tinha sido concedida imunidade total por Bugliosi após Susan Atkins, a quem ele chamou de “pequena vagabunda” durante o julgamento, ter descumprido um acordo para fornecer provas ao estado em troca de uma promessa de não ter a pena de morte requerida contra ela.)”

“Vincent Bugliosi explicou anomalias no caráter de Linda Kasabian, dizendo, por exemplo, que ela havia roubado 5 mil dólares sob as ordens de Charlie [Manson]. Apesar do fato de que ela havia conhecido Charles Manson a pouco mais de um mês antes de estar envolvida nos assassinatos, e apenas a uma semana e meia antes de ter roubado o dinheiro, isso foi o suficiente: em apenas 10 dias, o campo de força da personalidade do carismático Charles Manson deixou Kasabian pronta para roubar para ele. Um mês depois, ela estava disposta a matar por ele. Agora, ela era testemunha especial do estado contra ele.”

“Charles Manson, Susan Atkins e os outros membros da “Família Manson” não receberam sentença de prisão perpétua, mas isso é o que as sentenças se tornaram. Quando suas sentenças de morte foram revogadas, eles foram re-sentenciados a prisão perpétua com a possibilidade de liberdade condicional. O fato é que Vincent Bugliosi fez o seu trabalho tão bem em sua tentativa de colocar Charles Manson na câmara de gás que ele criou um mito que perdura quase 40 anos após o crime. Ele criou um mito de Charles Manson como esse monstro manipulador hippie, transformando assim Tex Watson, Susan Atkins e os outros envolvidos em robôs sem alma, que teriam matado a seu comando.”

“Legalmente, para provar a culpa de Charles Manson e seus companheiros Vincent Bugliosi não era obrigado a revelar um motivo para os assassinatos. Os assassinatos poderiam ter sido conseqüência de uma invasão de domicílio para assalto: Linda Kasabian testemunhou que acreditava que eles estavam apenas saindo para invadir casas, como o grupo havia feito antes. (Depois ela se contradisse, afirmando que Manson havia declarado “o amanhecer de Helter Skelter” antes de ela ter saído para cometer os assassinatos, adotando então o cenário proposto por Bugliosi. Há motivos para acreditar que ela foi orientada [por Bugliosi].)”

“O que eu acredito é que o cenário de “Helter Skelter” de Vincent Bugliosi foi fabricado a fim de vender uma convicção de Charles Manson aos jurados, e assim vender Vincent Bugliosi para as editoras de livros – e também para o público, que continua a acreditar nesse mito.”

As passagens acima ilustram uma parte da abundância de contradições que cercam o caso de Charles Manson. Trata-se de uma história que se tornou tão famosa em função dos mitos que foram criados a portas fechadas nos bastidores do julgamento. Infelizmente, essas fabricações permanecem vivas nas mentes das pessoas ainda hoje, mais de 40 anos depois. Essa triste realidade, porém, não torna a ficção mais verdadeira. É importante reconhecer isso.

Para ler o artigo original de Jon C. Hopwood, clique aqui

 Seria Charles Manson vítima de uma armação?

© 2010 ATWA Brasil


Por trás dos pingüins mortos no Brasil

atwa pinguins Por trás dos pingüins mortos no Brasil

As centenas de pingüins que aparentemente morreram de fome e apareceram nas praias do Brasil, na Baixada Santista, têm preocupado os cientistas que investigam o que exatamente os mataram. Cerca de 500 pingüins foram encontrados nos últimos dez dias em Peruíbe, Praia Grande e Itanhaém, praias no estado de São Paulo. A maioria eram pinguim-de-magalhães (Spheniscus magellanicus), um pinguim sul-americano característico de águas temperadas.

Aparentemente, os animais estavam migrando em direção norte a partir da Argentina, Chile e das Ilhas Malvinas, a procura de comida em águas mais quentes. Mas muitos não estão encontrando alimento: autópsias de várias aves têm revelado que os seus estômagos estavam inteiramente vazios – indicando que provavelmente morreram de fome.

Cientistas estão investigando se as correntes fortes e águas mais frias do que o normal podem ter ferido as populações das espécies que compõem a dieta dos pingüins, e se a atividade humana pode ter um papel significativo nesse desastre. A sobrepesca na região pode ter feito com que o peixe e a lula se tornassem mais escassos nessa época do ano, resultando assim em falta de alimento para os pingüins e outros animais.

É comum para os pingüins nadar em direção norte nessa época do ano. Inevitavelmente, alguns se perdem pelo caminho ou morrem de fome ou exaustão, e acabam na costa brasileira, longe de casa. Esse é um fenômeno natural. Mas não é natural o que tem acontecido nos últimos dias – existe algo fora do balanço comum.

Cientistas locais afirmam que é comum encontrar entre 100 e 150 pingüins vivos nessas praias do Brasil nessa época do ano, e somente cerca de 10 mortos. Dessa vez, o susto foi encontrar um número absurdamente alto de pingüins mortos, e em curto período de tempo.

Alguns veículos de comunicação têm passado a diante a história de que a morte desses animais “está dentro da normalidade para essa época”. Trata-se de pura desinformação. Como explicado antes, a morte de pingüins nessa época é sim um fenômeno “dentro da normalidade”, mas o número de mortos nesse ano supera qualquer índice de normalidade.

O número de animais que apareceram mortos na Baixada Santista – 535 pingüins, 28 tartarugas, 6 golfinhos e algumas aves oceânicas, como atobás – é surpreendente. No caso das tartarugas, foi encontrado plástico no estômago dos animais, outro indício de que os animais estavam famintos, a procura de qualquer tipo de alimento.

A sobrepesca para alimentar os desejos carnívoros dos homens pode tido um papel fundamental na morte de todos esses animais – e dezenas de outros, que nem sequer chegaram às praias brasileiras. É o que está por trás dos pingüins mortos no Brasil. Mas é conveniente para o ser humano esconder atrás do argumento que essas mortes estão “dentro da normalidade”. Ironicamente, nenhuma morte por fome de seres humanos é considerada “dentro da normalidade”. Quem sabe, deveria ser.

Para ler o artigo original, clique aqui

 Por trás dos pingüins mortos no Brasil

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