Abaixo, a segunda postagem da tradução em desenvolvimento do livro “O Relâmpago e o Sol”, de Savitri Devi – cortesia da ATWA Brasil.
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Os leais à crença no “progresso” oferecem muitos argumentos para provar – para si e aos demais – que o presente, com todos os seus inconvenientes inegáveis, é, em geral, melhor do que qualquer época do passado, e até mesmo que é possível observar sinais claros de melhoria. Não é possível analisar todos esses argumentos em detalhe. Mas pode-se facilmente detectar as falácias escondidas nos argumentos mais difundidos e, aparentemente, mais “convincentes” deles.
Todos os defensores do “progresso” insistem enormemente em coisas como a alfabetização, a “liberdade” individual, as oportunidades iguais para todos os homens, a tolerância religiosa, e a “humanidade”, os progressos nesta última linha sendo aqueles que abrangem todas as tendências que encontram sua expressão na moderna preocupação com o bem-estar das crianças, as reformas prisionais, melhores condições de trabalho, os auxílios estatais aos desamparados e doentes e, se não maior bondade, pelo menos, menos crueldade com os animais. Os resultados deslumbrantes obtidos, nos últimos anos, na aplicação das descobertas científicas para indústrias e outras atividades práticas são, naturalmente, os mais populares de todas as instâncias que servem para mostrar o quão maravilhoso é o nosso tempo presente. Mas esse ponto não será discutido, uma vez que já deixamos claro que nós não negamos ou minimizamos a importância do progresso técnico. O que fazemos é negar a existência de quaisquer progressos no valor do homem como tal, seja individualmente ou coletivamente, e as nossas reflexões sobre a alfabetização universal, e outros altamente elogiados “sinais” de melhoria que os nossos contemporâneos têm orgulho, nascem desse único ponto de vista.
Nós acreditamos que o valor do homem – assim como o valor de cada criatura – não reside no mero intelecto, mas no espírito: na capacidade de refletir o que, por falta de uma palavra mais precisa, nós escolhemos chamar de “o divino”, ou seja, o que é verdadeiro e belo além de toda a manifestação, que permanece intemporal (e, portanto, imutável) dentro de todas as alterações. Nós acreditamos nisso, com a diferença que, aos nossos olhos – ao contrário do que os cristãos mantêm – a capacidade de refletir o divino está intimamente ligada com a raça do homem e a sua saúde física; em outras palavras, que o espírito é dependente do corpo. E nós não conseguimos ver que as melhorias que testemunhamos hoje em dia na educação ou no campo social, no governo ou até mesmo em questões técnicas, têm tornado homens e mulheres individualmente mais valiosos nesse sentido, ou criado um novo tipo duradouro de civilização em que as possibilidades do homem de perfeição em todos os campos, assim concebido, estão sendo promovidas. Os hindus parecem ser, hoje, o único povo que, por tradição, partilha as nossas opiniões; e eles têm, no decorrer do tempo, falhado em manter a ordem divina – a regra das castas naturalmente dominantes. E nós, o único povo no Ocidente que têm tentado restaurar essa ordem divina nos tempos modernos, temos sido materialmente arruinados pelos agentes das forças da falsa igualdade que o mundo moderno chama de forças do “progresso”.
Progresso? – É verdade que, hoje, pelo menos em todos os países altamente organizados (tipicamente “modernos”), quase todo mundo pode ler e escrever. Mas e daí? Ser capaz de ler e escrever é uma vantagem – e uma vantagem considerável. Mas não é uma virtude. É uma ferramenta e uma arma, um meio para um fim, uma coisa muito útil, sem dúvida, mas não um fim em si mesmo. O valor final da alfabetização depende do fim para o qual ela é usada. E para que fim ela é geralmente utilizada nos dias de hoje? Ela é usada por conveniência ou entretenimento, por aqueles que lêem; para alguns comerciais, ou alguma propaganda indesejável – para ganhar dinheiro ou conquistar poder – por aqueles que escrevem; às vezes, é claro, por ambos, para adquirir ou propagar conhecimentos desinteressantes sobre as poucas coisas que vale a pena conhecer; para encontrar expressão ou dar expressão aos poucos sentimentos profundos que podem levantar um homem para a consciência das coisas eternas, mas não mais freqüentemente do que nos dias em que um homem em dez mil conseguia entender o simbolismo da palavra escrita. Geralmente, nos dias de hoje, o homem ou a mulher que o ensino obrigatório transformou em “letrado” usa a escrita para comunicar assuntos pessoais com amigos e parentes distantes, para preencher formulários – uma das ocupações internacionais da humanidade civilizada moderna – ou para memorizar coisas úteis, mas também insignificantes, como o endereço de alguém ou um número de telefone, ou a data de algum encontro com o cabeleireiro ou dentista, ou a lista de roupas limpas deixadas na lavanderia. Ele ou ela lê “para passar o tempo”, porque, fora do horário de trabalho, o mero pensamento não é mais intenso e interessante o suficiente para servir a esse propósito.
Sabemos também que existem pessoas cujas vidas foram direcionadas para algum destino por um belo livro, um poema – uma frase simples – lida na infância distante, como Schliemann, que prodigamente gastou em escavações arqueológicas a riqueza que foi construída com paciência em quarenta anos de triste trabalho pesado, tudo por causa da impressão deixada sobre ele, ainda quando menino, pela história imortal de Troia. Mas esse tipo de pessoa sempre viveu, mesmo antes de a escolaridade obrigatória entrar em moda. E as histórias ouvidas e lembradas não eram menos inspiradoras do que as histórias de lemos agora. A vantagem real da alfabetização geral, se houver uma, deve ser procurada em outro lugar. Ela não reside na melhoria da qualidade tanto dos homens e mulheres extraordinários ou dos milhões de alfabetizados, mas sim no fato de que estes últimos estão rapidamente se tornando mais intelectualmente preguiçosos e, portanto, mais ingênuos do que nunca – e não menos – mais facilmente enganados, mais susceptíveis a serem conduzidos como ovelhas sem sequer a sombra de um protesto, desde que o absurdo que se deseje que eles engulam seja apresentado em forma impressa e pareça ser “científico”. Quanto maior o nível geral de alfabetização, o mais fácil é, por um governo no controle da imprensa diária e do setor editorial – esses quase irresistíveis meios modernos de ação sobre as mentes – para manter as massas sob o seu polegar, sem que esses nem sequer suspeitem.
Entre os analfabetos, mas muito mais ativamente pensantes, abertamente regidos na antiga forma autocrática, um profeta, porta-voz direto dos deuses, ou de verdadeiras aspirações coletivas, poderia sempre confiar a subir entre a autoridade secular e as pessoas. Os próprios sacerdotes não teriam a certeza de manter o povo em obediência para sempre. As pessoas poderiam escolher ouvir o profeta, se elas quisessem. E elas o fizeram, às vezes. Nos dias de hoje, onde a alfabetização universal é predominante, inspirados expoentes da verdade eterna – os profetas – ou até mesmo os defensores altruístas das mudanças práticas, têm cada vez menos chances de aparecer. O pensamento sincero, o pensamento realmente livre, em nome da autoridade sobre-humana ou do senso comum humilde, para questionar a base do que é oficialmente ensinado e geralmente aceito, tem cada vez menos chances de prosperar. É, repetimos, de longe, mais fácil escravizar um povo alfabetizado do que um analfabeto, por mais estranho que isso possa parecer à primeira vista. E a escravidão também é mais provável que seja duradoura. A vantagem real da alfabetização universal é aumentar o controle do poder do governo sobre os milhões de tolos e vaidosos. É provavelmente por isso que gritam para as nossas cabeças, desde a infância, que a “alfabetização” é uma bênção. A capacidade de pensar por si mesmo é, contudo, o benefício real. E isso sempre foi e sempre será o privilégio de uma minoria, uma vez reconhecidos e respeitados como uma elite natural. Hoje, a educação obrigatória em massa e uma literatura cada vez mais padronizada para o consumo de cérebros “condicionados” – sinais proeminentes do “progresso” – tendem a reduzir essa minoria à menor proporção possível; em última instância, a eliminá-la completamente. É isso o que a humanidade quer? Se assim for, a humanidade está perdendo a sua razão de ser, e quanto mais cedo for o final desta chamada “civilização”, melhor.
O que temos dito sobre a alfabetização pode ser repetido sobre as outras duas principais glórias da democracia moderna: a “liberdade individual” e a igualdade de oportunidades para cada pessoa. A primeira é uma mentira – e uma mentira cada vez sinistra à medida que as algemas do ensino obrigatório estão mais e mais irremediavelmente apertadas ao redor das pessoas. A segunda é um absurdo.
Uma das mais engraçadas inconsistências do cidadão médio do mundo moderno e industrializado é a maneira em que ele critica todas as instituições de civilizações mais antigas e melhores, como o sistema de castas dos hindus ou o culto familiar absorvedor do Extremo Oriente, com o fundamento de que estes tendem a limitar a “liberdade do indivíduo”. Ele não percebe o quão exigente – ou melhor, o quão aniquilador – é o comando da entidade coletiva que ele obedece (metade do tempo, inconscientemente) em comparação com o da autoridade coletiva tradicional dessas sociedades aparentemente menos “livres”. As pessoas guiadas por castas ou guiadas pela família, na Índia ou no Extremo Oriente, não são permitidas a fazer tudo o que elas gostariam em muitos campos relativamente insignificantes, e em alguns assuntos realmente muito importantes, da vida diária. Mas elas podem acreditar no que elas quiserem, ou melhor, no que elas puderem; podem sentir de acordo com sua própria natureza e se expressar livremente sobre um grande número de questões essenciais; elas são permitidas a conduzir as suas “vidas maiores” da maneira que julgarem ser mais sábio para elas, após os seus deveres para com a família e o rei forem cumpridos. O indivíduo que vive sob o domínio de ferro e aço do “progresso” moderno pode comer o que ele gosta (e comer muito) e casar com quem lhe agrada – infelizmente – e ir sempre onde ele gosta (pelo menos em teoria). Mas ele é obrigado a aceitar, em todos os assuntos extra-individuais – questões que, para nós, realmente contam – as crenças, as atitudes perante a vida, a escala de valores e, em grande medida, as posições políticas, que tendem a fortalecer o poderoso sistema sócio-econômico de exploração ao qual ele pertence (ao qual ele é forçado a pertencer, a fim de ser capaz de viver) e no qual ele é apenas uma simples peça. E, além disso, ele é levado a crer que é um privilégio seu ser uma engrenagem de tal organismo; que as questões sem importância sobre as quais ele sente que é o seu próprio mestre, de fato, são as mais importantes – e as únicas realmente importantes. Ele é ensinado a não valorizar a liberdade de juízo sobre a verdade eterna, estética, ética ou metafísica, da qual ele é sutilmente privado. Mais ainda: ele é ensinado – nos países democráticos, de qualquer modo – que ele é livre em todos os aspectos; que ele é “um indivíduo, que responde a ninguém, mas somente à sua própria consciência”… depois de anos de condicionamento ter moldado a sua “consciência” e todo o seu ser, tão completamente de acordo com o padrão, que ele não é mais capaz de reagir de uma forma diferente. E como pode um homem assim falar de “pressão sobre o indivíduo” em qualquer sociedade, seja ela antiga ou moderna!
Pode-se perceber o como que as mentes do homem têm sido curvadas no mundo em que vivemos hoje, tanto por condicionamento deliberado como pelo condicionamento inconsciente, quando se encontra pessoas que nunca viveram sob a influência da civilização industrial, ou quando alguém acaba tendo a sorte de ter desafiado, desde a infância, a pressão perniciosa do ensino padronizado, e de ter permanecido livre em meio à multidão daqueles que reagem exatamente como eles foram ensinados sobre todas as questões fundamentais. A diferença entre os pensantes e os irracionais, os livres e os escravos, é revoltante.
Quanto à “igualdade de oportunidades”, não existe qualquer forma de tal coisa existir. Ao produzir homens e mulheres diferentes, tanto em grau e em qualidade de sensibilidade, inteligência e força de vontade, diferentes em caráter e temperamento, a própria Natureza lhes dá as oportunidades mais desiguais para o cumprimento das suas aspirações, não importando quais essas possam ser. Uma pessoa excessivamente emocional e bastante fraca pode, por exemplo, nem conceber o mesmo ideal de felicidade, nem ter chances iguais de alcançá-lo durante a vida, se comparada com quem nasce com uma natureza mais equilibrada e uma força de vontade mais forte. Isso é óbvio. Some a isso as características que diferenciam uma raça de homens de outra, e o absurdo da própria noção de “igualdade humana” se torna ainda mais impressionante.
O que nossos contemporâneos querem dizer quando falam de “igualdade de oportunidades” é o fato de que, nas sociedades modernas – assim dizem – qualquer homem ou mulher tem, cada vez mais, chances similares aos seus vizinhos de conquistar uma posição e fazer o trabalho para qual ele ou ela está naturalmente adaptado. Mas isso também é apenas parcialmente verdadeiro. Pois, cada vez mais, o mundo de hoje – o mundo dominado pela indústria de grande escala e pela produção em massa – pode oferecer somente postos de trabalho em que o melhor do que o trabalhador é realmente capaz de fazer tem pouco ou nada de influência se ele ou ela for nada mais do que uma pessoa meramente inteligente e materialmente eficaz. O artesão hereditário, que pode encontrar a melhor expressão para o que se convencionou chamar de sua “alma” em seu trabalho diário de tecelagem, tapeçaria, esmalte, etc, e até mesmo o lavrador do solo, em contato pessoal com a Mãe Terra e o Sol e as estações, estão se tornando cada vez mais figuras do passado. Há cada vez menos oportunidades, também, para o verdadeiro e sincero buscador da verdade – orador ou escritor – que se recusa a tornar-se expositor das idéias amplamente aceitas, produtos do condicionamento das massas, as quais ele ou ela não aceita; e para o buscador da beleza, que se recusa a ceder a sua arte para as demandas do gosto popular, que ele ou ela sabe que é mau gosto. Essas pessoas perdem muito da sua competência fazendo de forma ineficiente – e a contragosto – algum trabalho para o qual elas não são adaptadas, para conseguirem viver, antes que elas possam dedicar o resto das suas vidas para o que os hindus chamariam de sua sadhana – o trabalho para qual a sua natureza mais profunda o nomeou: a dedicação da sua vida.
A idéia da divisão moderna do trabalho, resumido na frase tantas vezes citada “o homem certo no lugar certo”, resume-se, na prática, pelo fato de que qualquer homem – qualquer um dos milhões de maçantes – pode ser “condicionado” para ocupar qualquer lugar, enquanto o melhor dos seres humanos, os únicos que ainda justificam a existência dessa espécie mais e mais degenerada, têm seus potenciais papéis negados. Progresso…
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