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O mito de Charles Manson como Jesus Cristo

manson jesuscristo O mito de Charles Manson como Jesus Cristo

Um mito comum sobre Charles Manson é que para os seus supostos “seguidores” ele seria uma reencarnação de Jesus Cristo. Todos que sabem o mínimo sobre Manson ouviram falar disso – isso se confirma pelos comentários postados pelos visitantes desse website. Essa questão foi levantada pelo promotor Vincent Bugliosi durante o julgamento, e usada contra Manson para convencer o júri que o condenou. Mas isso não é verdade. Trata-se apenas de mais um mito, uma mentira perpetuada pela mídia sensacionalista americana e, em seguida, pelo Ministério Público também. Essa mentira apareceu no livro “Helter Skelter”, escrito pelo promotor que condenou Manson, e a partir de então se tornou conhecida entre os leigos como uma verdade.

Charles Manson tem uma explicação clara sobre a forma como ele se tornou conhecido como Jesus Cristo: “Eu costumava andar com esse cara chamado Christopher Jesús. Ele era conhecido como Jesus, mas nós o chamávamos de “Zero”. E os policiais tinham uma lista de quem era quem (eles estavam investigando acusações de incêndio e roubo de veículos), e eles vieram até mim e perguntaram se eu era Jesus [procurando pelo Christopher Jesús]. Eu disse: ‘Não, meu nome é Manson’. E eles disseram: ‘Isso mesmo, você é ele. Manson, o filho do homem, você é ele’. E assim, quando eles me registraram na prisão eles me autuaram com o nome Jesus Cristo”.

Manson contou essa mesma história muitas vezes durante as últimas décadas. É necessário entender que as pessoas que alegavam que ele se auto-intitulava Jesus Cristo não eram pessoas que conheciam Manson por muito tempo. Algumas delas o conheciam apenas há alguns meses, e após os assassinatos em que estavam envolvidas elas simplesmente fugiram: Krenwinkle para o Alabama, Kasabian para New Hampshire, Watson para o Texas e Atkins para outra localidade na Califórnia. É interessante notar que são as histórias dessas pessoas que mudaram vez após vez com o passar de todos esses anos, e não a versão de Manson. É dito que se você achar que alguém pode estar mentindo, basta repetir a mesma pergunta várias vezes. Se a história mudar, as chances são boas de que é tudo mentira.

Outros membros da suposta “Família Manson”, como Steve Grogan e Poston Brooks, confirmam que Manson nunca disse que ele era Jesus Cristo, mas que eles haviam testemunhado Manson fazer coisas que eles julgavam que apenas Jesus seria capaz de fazer. Grogan contou um caso em que Manson uma vez trouxe um pássaro de volta à vida. Poston disse que Manson apenas dizia coisas como “eles me crucificaram” e “eu estava naquela cruz”, com relação a seus anos de detenção. No entanto, Manson ainda fala coisas assim hoje, obviamente em metáfora.

Em seu livro de 1979, “My life with Charles Manson” (“Minha vida com Charles Manson”, em português) Paul Watkins afirmou que Charles Manson, na verdade, ficou chateado quando as meninas começaram a dizer às pessoas que ele era Jesus Cristo. Segundo mais esse membro da suposta “Família Manson”, o título de Jesus Cristo era algo dado a Manson pelas meninas, sem a aprovação do próprio Manson.

E de fato, a maioria das meninas sempre declarou que Manson nunca disse que ele era Jesus Cristo, mas que elas o viam como Deus ou algo semelhante. Susan Atkins foi a primeira a sair dizendo a todos que ele era Deus e Jesus Cristo. Na realidade, foi ela quem batizou Manson dessa forma. Em uma entrevista em 1978, ela diz: “Ele, pessoalmente, nunca se chamou de Jesus Cristo. Ele apenas representava uma pessoa que era como Jesus Cristo para mim”.

Em seu livro publicado em 1978, intitulado “Child of Satan, Child of God” (“Criança de Satã, Criança de Deus”, em português) Susan Atkins menciona duas vezes o seguinte:

Página 87:
“Eu ansiava por ver Charlie. Eu caminhei para fora do ônibus. Charlie estava lá, sozinho. Ele estava vestido com uma longa túnica branca. Eu soube imediatamente que ele poderia ser o próprio Deus; se não, ele era algo perto disso”.

Página 92:
“Os homens se agrupavam em torno dele. Eu contei: havia doze homens. Com seu cabelo longo e barba, os olhos olhando fixamente de rosto em rosto, ele parecia Jesus falando aos seus doze apóstolos. O pensamento simultaneamente me espantou e me emocionou. Foi quando eu senti que ele poderia ser Jesus Cristo”.

Enfim, Susan Atkins foi quem deu início a essa história de que Charles Manson poderia ser Jesus Cristo. Ao que tudo indica, algumas das meninas gostaram da idéia dela – por motivos variados, que vão desde simples brincadeira até realmente a crença em tal coisa. Também foi Atkins quem vendeu a Vincent Bugliosi, o promotor que condenou Manson, esse mito. E como sabemos, foi com o livro de Bugliosi que essa história se tornou conhecida por todos.

Os fatos e as evidências estão disponíveis para todos. Quanto a essa questão de Charles Manson se considerar uma reencarnação de Jesus Cristo, se trata apenas de mais um mito – mais uma fantasia vendida sob o título de “Helter Skelter”, a obra de ficção do promotor Vincent Bugliosi.

 O mito de Charles Manson como Jesus Cristo

© 2011 ATWA Brasil


A barbearia

Abaixo, uma carta de Charles Manson enviada em 2009:

barbearia A barbearia

“Eu trabalhei nas barbearias nos anos de prisão antes de eu vir aqui para os tribunais da Califórnia – em Ohio, na Pensilvânia, em Virgínia, Washington DC. Eu sempre cortei o meu cabelo porque eu nunca tive ninguém para me enviar ajuda. Então eu meio que estive nas barbearias, e eu fui à escola de barbearia no estado de Washington, mas nunca voltei lá para pegar a minha licença. Eu posso ser um barbeiro licenciado naquele estado, então eu sei como as regras e os jeitos das barbearias lá são. Tudo era feito nas áreas abertas da prisão. Eu comecei nessas áreas antes da maioria das pessoas virem à prisão, então eu entendo isso.

Então quando o promotor abriu a sua cabeça para mim no tribunal para tentar se tornar grande lá do lado de fora, eu abri a minha cabeça para ser tão grande quanto ele, mas aqui do lado de dentro. Eu não tinha o direito de falar, então eu o fiz mesmo assim, mas com imagens. Eu sabia que eu havia ganhado, porque tudo o que ele estava fazendo era o que a mãe dele lhe havia dito – isso era a igreja, a escola, etc. Ele não tem uma alma, uma mente dele mesmo, ele está trancado nas prisões. Então eu abri a minha barbearia na sala do julgamento, e quanto eu voltei para a prisão eu só me mantive de um jeito: construa, deixe crescer, depois corte, e eu tenho controlado as imagens, os sons e os movimentos como no jogo de xadrez que ele está jogando com os vivos – mas eu estou lidando, na verdade, com os mortos.

Eu sei mais sobre os tribunais, as leis, as prisões, a marinha, o exército, a força aérea, a guarda costeira do que qualquer pessoa nesse mundo, ou qualquer pessoa que já esteve nesse mundo. Eu tenho pegado os cérebros de milhares de pessoas. Veja, quando você não tem ninguém, e você cresce olhando para todos ao seu redor, você aprende de todos: os homens são os seus pais, as mulheres são as suas mães, e as esposas são você. Você se torna tudo o que você é capaz de descobrir.

A corporação abre a sua barbearia com o homem mais poderoso, e ele é Charles Manson – Guerra Mundial I e Guerra Mundial II.

-C. Manson”

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Charles Manson: Mitos e fatos

 Charles Manson: Mitos e fatos

Quando o álbum de Charles Manson intitulado “Lie: The Love and Terror Cult” foi lançado durante o julgamento de 1970, poucos perceberam que a intenção do disco, algo que era explícito na capa e no título do álbum, era refutar as mentiras sensacionalistas publicadas na revista Life em sua edição de 19 de dezembro de 1969.

Durante o julgamento, muitos dos argumentos usados pela acusação para convencer o júri popular a condenar Manson eram teorias que haviam sido vendidas pelos próprios advogados da acusação à revista. Essas teorias publicadas pela revista Life durante o julgamento de Manson se tornaram mitos conhecidos mundialmente – basicamente, o que a pessoa comum sabe hoje sobre Charles Manson são esses mitos. A idéia de que havia uma “Família Manson”, e o próprio termo “Família Manson”, foram publicados pela primeira vez na edição da Life de 19 de dezembro de 1969. A teoria de que Manson e seus conhecidos eram “hippies”, e de que Manson era um “líder” e os demais eram “seguidores”, também foram publicadas pela primeira vez nessa mesma revista.

Muitos desses mitos foram vitais para a acusação conseguir a condenação de Charles Manson. Eles se tornaram tão conhecidos entre as pessoas que o júri popular era incapaz de separar os mitos dos fatos. Todas as teorias conspiratórias podem ser encontradas no livro Helter Skelter, escrito por Vincent Bugliosi, o promotor do caso que conseguiu a condenação de Manson. Infelizmente, esse livro cheio de histórias mirabolantes se tornou a principal fonte de informação sobre o caso de Charles Manson.

Portanto, lidar com alguns desses mitos, e separá-los dos fatos, é a proposta dessa seção.

Mito 1 – Charles Manson é um assassino

A hipótese de que Charles Manson seja um assassino, ou como ainda é mais comum, um assassino-serial, tornou-se tão amplamente aceitada que a maioria das pessoas a consideram como uma verdade incontestável. Não é à toa que fotos de Manson rotineiramente ilustram as capas de revistas e DVDs sobre assassinos famosos. Até mesmo entrevistadores famosos assumem que Manson é de fato um assassino, como disse Geraldo Rivera em sua famosa entrevista com Manson: “Você é um cachorro, um assassino-serial!”

Apesar disso, Manson nunca matou ninguém. A própria acusação nunca alegou que ele tenha matado qualquer uma das pessoas por quais os assassinatos ele foi condenado. Segundo a acusação, Manson nunca esteve na residência de Sharon Tate, e ele teria abandonado a casa da família LaBianca antes de qualquer pessoa ter sido agredida. Apesar da coleção de rumores de que Manson tenha matado e enterrado pessoas em Spahn Ranch, até hoje, após inúmeras investigações e escavações, não existe qualquer evidência que sustente tais mitos.

Mito 2 – Charles Manson era obcecado pela banda The Beatles

Esse mito foi elaborado pelo promotor, Vincent Bugliosi, para sustentar a sua teoria, conhecida como Helter Skelter, que acabou por condenar Manson pelos assassinatos conhecidos como Assassinatos Tate-LaBianca. Sem o apoio da mídia sensacionalista que repetia as palavras da acusação diariamente na televisão, rádio, jornais e revistas, seria impossível convencer o júri popular sobre a teoria de Helter Skelter.

É difícil de acreditar que um homem de mais de 30 anos de idade, que viveu em orfanatos, centros de detenção juvenis e prisões federais, que passou pelas mais difíceis condições possíveis nos Estados Unidos da década de 1960, sairia da prisão e se tornaria o fã número um da então moda jovem chamada The Beatles. Não é muito provável. Obviamente, Manson ouviu a música dos Beatles, e a banda era parte do mundo de Manson assim como era parte do mundo da maioria dos jovens e adultos na década de 1960. Mas dizer que Manson era obcecado pelos Beatles é simplesmente mais um mito da acusação.

A maioria prova disso é a própria música de Charles Manson. De todas as faixas de áudio que são hoje disponíveis, sejam elas releases profissionais não-autorizados ou material de circulação underground, nada se assemelha ou tem haver com qualquer trabalho relacionado aos Beatles. Se Manson era mesmo obcecado pelos Beatles, não seria natural que existisse no mínimo uma semelhança mínima entre a música de Manson e a música dos Beatles?

Mito 3 – Charles Manson queria ser um artista reconhecido

Na sociedade ocidental, e especialmente nos Estados Unidos, celebridades e chamar à atenção das pessoas se tornaram coisas tão importantes que muitas pessoas que se destacam em alguns campos (sobretudo na música, cinema e esportes) podem atingir um status e adoração que tempos atrás era algo reservado para grandes líderes políticos, heróis militares, etc. Hoje, ser reconhecido é tido como um sinal de grandeza. Em função desse “culto de celebridades”, que nasceu com a indústria cultural dos Estados Unidos, se tornou plausível para muitas pessoas acreditar que fama e dinheiro representam o desejo de todos.

Mas basta uma pequena análise da vida de Charles Manson para compreender que esse fascínio pelo reconhecimento público era uma realidade muito distante. Manson, quando não estava encarcerado, morou nas ruas e nas áreas desérticas da Califórnia. Ele raramente saía do deserto para “fazer parte” da sociedade americana. Em um tom de ironia quando questionado pelo entrevistador Tom Snyder em 1981 sobre esse mito, Manson foi claro: “Eu tive todo o dinheiro do mundo três vezes, e ele só serviu para ser devolvido. Para que serve ter dinheiro? No rancho (Spahn Ranch) nós imprimíamos o dinheiro, colocávamos nossos rostos nele”. Não existem evidências de que Manson sonhasse em se tornar uma celebridade, mas existem dezenas de fatos que comprovam que a vida que ele desejava era underground, às margens da sociedade consumista americana.

Mito 4 – A existência de uma suposta “Família Manson”

As pessoas que moravam ou visitavam o Spahn Ranch nunca se referiram a eles mesmos por qualquer nome coletivo. O que existiu no Spahn Ranch, e Charles Manson abertamente falou sobre isso diversas vezes, era um grupo musical underground chamado “The Family Jams”. O que aconteceu é que o termo “Family”, usado no nome do grupo musical foi aproveitado pela mídia sensacionalista, e colocando Manson com a figura de um líder, e portanto um pai, surgiu o termo tão conhecido: “Família Manson”.

Os promotores do caso, aliás, fizeram parte da elaboração desse termo ao vender informações sigilosas do julgamento à revista Life para a sua edição de 19 de dezembro de 1969. Ao promover Manson como o pai dessa suposta “Família Manson”, se tornou possível colocar todos os jovens que de fato participaram dos Assassinatos Tate-LaBianca como filhos, seguidores de Manson e, portanto, sob responsabilidade dele. O termo “Família Manson” não é nada mais do que um mito, uma expressão conveniente usada pela acusação para implicar e condenar Manson pelos assassinatos de 1969. É triste que a maioria das pessoas tenha comprado essa história.

Mito 5 – Charles Manson era o líder da “Família Manson”

Primeiramente, se nunca existiu uma “Família Manson”, então é impossível que tenha havido um líder para tal grupo. De qualquer maneira, tirando de lado os jovens que cometeram os assassinatos de 1969 e que viam na teoria de incriminar Manson como líder uma esperança de escapar da prisão, a maioria das pessoas que moravam e visitavam o Spahn Ranch deram testemunhos de que, na comunidade, não havia líderes nem seguidores.

Mito 6 – Charles Manson e seus amigos abusavam de drogas

Embora seja até ridículo negar que as pessoas que frequentavam o Spahn Ranch usavam substâncias como maconha, LSD, mescalina, peiote e cogumelos psicoativos, fato é que não existem evidências de que houvesse qualquer utilização generalizada dessas drogas ou de outras drogas como cocaína ou anfetaminas. Esse fato é bem documentado até por testemunhas que decidiram apoiar os advogados da acusação em condenar Manson, como por exemplo, Paul Watkins.

O líder das suas noites de assassinatos em agosto de 1969, Charles “Tex” Watson, em seu livro “Will You Die For Me?”, também demonstra que, na maioria das vezes, Charles Manson tentava impedir que os jovens abusassem das drogas no Spahn Ranch. Muitos outros frequentadores do Spahn Ranch confirmaram que Manson “colocava para correr” pessoas que abusavam de drogas. Em todos os seus livros escritos pós-prisão, Tex Watson e Susan Atkins, principais figuras dos crimes de 1969, afirmam que tinham que se esconder de Manson e dos demais frequentadores do rancho para usar algumas drogas como anfetaminas. Além disso, nas diversas batidas policiais no Spahn Ranch, não foram apreendidas quantidades substanciais de drogas.

Mito 7 – O motivo dos Assassinatos Tate-LaBianca era dar início a Helter Skelter

Esse é o maior dos mitos – e o mais importante, uma vez que ele é o único que incrimina Charles Manson, e é o mito pelo qual ele foi condenado a prisão perpétua. De todos os mitos criados durante o julgamento, esse é o único que supostamente evidenciaria uma motivação pessoal de Manson por trás dos Assassinatos Tate-LaBianca. Motivação pessoal não é uma necessidade para a acusação conseguir uma condenação nos Estados Unidos, mas é um fator importantíssimo, uma vez que a decisão final é do júri popular. Apresentada uma motivação, dificilmente um júri inocenta um réu. Foi assim no caso de Manson.

Por outro lado, a ausência de uma motivação pessoal é uma evidência substancial de inocência. O advogado da acusação, Vincent Bugliosi, assumiu de imediato no início do julgamento que Manson era culpado por todos os crimes, e a sua missão a partir de então foi encontrar meios de relacionar Manson com os assassinatos. Nenhuma outra teoria sobre o caso ou interpretação de qualquer evidência foram considerados. Acontece que, mesmo assim, a acusação enfrentou dificuldades em incriminar Manson, principalmente porque não se encontrava uma motivação pessoal. Bugliosi, em seu livro best-seller sobre o caso intitulado Helter Skelter, dedica mais de 60 páginas à dificuldade de mostrar que Manson havia uma parcela de culpa pelos assassinatos. Sendo assim, é compreensível que a única teoria encontrada por Bugliosi tenha sido algo fantasioso e literalmente inacreditável: a teoria de Helter Skelter.

Resumidamente, a teoria de Helter Skelter é a seguinte: a “Família Manson”, liderada pelo manipulador e criminoso Charles Manson, era uma comunidade de racistas drogados que pretendiam iniciar uma guerra racial nos Estados Unidos, cometendo assassinatos chocantes contra brancos e fazendo parecer terem sido crimes cometidos por negros. A revolta consequente causaria os brancos a retaliarem contra os negros, dando início à guerra, apelidada de Helter Skelter.Enquanto a guerra se desenvolvia, Manson e o seu grupo de seguidores iriam se esconder em um poço escondido no meio do deserto de Death Valley, na Califórnia. Segundo a teoria, os negros venceriam a guerra contra os brancos, mas seriam incapazes de governar sem a ajuda de pessoas brancas. Nesse momento, os únicos brancos restantes, a “Família Manson”, sairia do seu esconderijo para governar. De fato, é uma história mirabolante, que só poderia mesmo virar um best-seller ou um filme de Hollywood. Seria injusto tirar esse crédito de Vincent Bugliosi, mas acontece que Charles Manson foi de fato condenado por essa fantasia.

O motivo verdadeiro por trás dos assassinatos era, na realidade, bem simples: tirar um dos amigos de Spahn Ranch, Bobby Beausoleil, da prisão. Dias antes, Beausoleil havia sido preso após esfaquear Gary Hinman em uma briga por dinheiro de venda de drogas. A idéia dos jovens que cometeram os Assassinatos Tate-LaBianca, sob a liderança de Charles “Tex” Watson, era repetir crimes semelhantes nas redondezas, a fim de indicar à polícia que o verdadeiro assassino de Hinman estaria ainda em liberdade. Eles acreditavam que isso poderia fortalecer a defesa de Beausoleil e livrá-lo da prisão. Esse motivo, muito mais realista e carregado com provas e evidências, foi descartado pelos advogados da acusação. O motivo real era esse, mas só havia um problema: Charles Manson não estava envolvido.

Mito 8 – O livro “Manson em Suas Próprias Palavras” é de Charles Manson

“Existe alguma maneira de apagar esse livro? Essa coisa tem sido uma maldição. Tem destruído todos nós e ATWA por mais de 10 anos. Deveria ser o suficiente!”. Foi isso que Charles Manson escreveu em uma carta. Tirando de lado as próprias palavras de Manson, que sempre negou ter envolvimento com esse livro, a maior evidência de que o livro não tem participação de Manson é que as palavras supostamente usadas por ele no livro são extremamente diferentes das que ele normalmente usa, tanto falando como escrevendo. Até mesmo Vincent Bugliosi afirmou que as palavras não podem ser de Manson.

Isso não é surpreendente, porém, porque nas entrevistas que o autor do livro diz ter feito com Manson ele não teria direito a um gravador de voz ou a escrever suas anotações. Em função dessas limitações, e de outros motivos pessoais do autor do livro, como por exemplo a intenção de lançar um livro best-seller, muito do que é apresentado como as palavras literais de Manson deve ser ignorado. No fim, o livro representa uma coletânea de palavras, idéias, pensamentos e percepções do próprio autor, Nuel Emmons, e não de Charles Manson. Para encerrar com esse mito, existem dezenas de evidências que comprovam que muitos dos acontecimentos descritos no livro nunca aconteceram.

Mito 9 – O pai de Charles Manson era um homem negro

Esse mito foi criado pelo advogado de acusação, Vincent Bugliosi, em seu livro best-seller sobre o caso de Manson intitulado Helter Skelter. Segundo o autor do mito, o pai de Manson era um homem negro, e isso teria motivado Manson a se tornar um homem branco racista a fim de promover uma guerra racial. Não é diferente da história tão contada sobre a avó de Adolf Hitler ter sido uma judia. No melhor das contas, trata-se de um argumento ridículo.

Primeiramente, Manson não carrega nenhum traço genético de uma pessoa negra. Por menos negro que o pai de Manson possa ter sido, sempre existem traços físicos reconhecíveis. Além disso, o autor do mito baseia-se puramente no antigo mito de que “o cozinheiro de cor Colonel Scott” era o pai de Manson. Esse é um dos mistérios que emergiram durante o julgamento, em que a figura de Manson transformava-se diariamente, em mutações fantásticas geradas pela fome de audiência da mídia sensacionalista americana. Mas mesmo que o misterioso Colonel Scott fosse o pai de Manson, é improvável que ele (Scott) fosse negro. Para provar isso, basta dar uma breve olhada nas antigas reportagens publicadas em maio de 1969 no jornal Daily Independent, de Ashland, em Kentucky, que fez uma cobertura sobre o assassinato de Darwin Orell Scott, irmão biológico do misterioso Colonel Scott. A fotografia de Darwin Scott que acompanha o artigo mostra claramente que ele é um homem branco. Veja abaixo o artigo escaneado do Daily Independent, que mostra a foto do suposto tio de Charles Manson:

A foto do tio de Charles Manson

A foto do tio de Charles Manson

Mito 10 – A “Família Manson” é responsável por pelo menos 35 assassinatos

A base desse mito é uma única alegação feita em 18 de agosto de 1970 por Juan Flynn, um ajudante do Spahn Ranch, em uma entrevista com a polícia de Los Angeles. Flynn teria dito à polícia: “Manson admitiu – ele se gabou – de ter matado 35 pessoas em um período de dois dias”. Essa é a única “evidência” sobre o mito de que Manson estaria envolvido em dezenas de assassinatos nunca descobertos.

O mito foi fortalecido também no livro de Vincent Bugliosi, em que ele dedica 10 páginas listando assassinatos e desaparecimentos que ele acredita terem sido cometidos por pessoas relacionadas a Charles Manson. Acontece que não existem evidências sobre nenhum desses casos. A justificativa de Bugliosi em seu livro é uma apenas: “Todos esses casos aconteceram no mesmo período que a ‘Família Manson’ estava agindo como maníacos homicidas”. Obviamente, isso não explica muito. Vamos então fazer uma breve análise dos três maiores casos descritos por Bugliosi como possíveis crimes da suposta “Família Manson”:

a) Assassinato de Darwin Orell Scott em Ashland, Kentucky, em 27 de maio de 1969:
Essa vítima foi encontrada morta esfaqueada em seu apartamento em Ashland. Segundo Bugliosi, o motivo pelo crime seria que Darwin Orell Scott era o tio de Charles Manson, irmão de Colonel Scott. Apesar de diversos moradores de Ashland terem testemunhado que teriam visto Charles Manson na cidade na época do assassinato, até mesmo o próprio Bugliosi, autor do mito, sugere que Manson estava na Califórnia quando esse assassinato aconteceu. Os artigos de jornais locais de Ashland diziam que Darwin Scott possuía altas quantias de dinheiro em seu modesto apartamento, e que a polícia local acreditava que roubo seguido de morte era a explicação para o caso. A vítima, que tinha passagem na polícia por crimes de invasão de propriedade privada e falsificação, estaria envolvida no comércio ilegal de bebidas alcoólicas. Uma evidência que sustenta essa afirmação é que a polícia encontrou no apartamento de Scott dezenas de garrafas lacradas de uísque.

b) Assassinato de Joel Dean Pugh em Londres, Inglaterra, em 1º de dezembro de 1969:
Essa vítima foi encontrada morta em um hotel de Londres com a garganta e os pulsos cortados. Joel é normalmente descrito como marido de Sandra Good, uma fiel companheira de Charles Manson. Na realidade, eles nunca foram casados. Joel também é descrito como um “ex-membro da ‘Família Manson” de acordo com a teoria Helter Skelter de Vincent Bugliosi, mas ele nunca conheceu Manson. Após anunciada a morte de Joel Pugh, seus familiares viajaram até Londres para contestar o veredicto oficial da polícia londrina de que Joel havia se suicidado. O pai de Joel era um médico da Mayo Clinic, em Rochester, no estado de Minnesota, e teve acesso às conclusões médicas dos legistas de Londres. Ele se convenceu de que Joel havia mesmo cometido suicídio, e a família retornou para os Estados Unidos. É estranho que Bugliosi tenha ousado contestar a polícia e os legistas da Inglaterra, além da própria família de Joel Pugh, sem ter acesso a qualquer informação sobre o caso.

c) Assassinato de Marina Habe em Los Angeles, Califórnia, em 30 de dezembro de 1969:
Esse caso é provavelmente o mais simples. Não existe qualquer evidência que possa conectar qualquer frequentador do Spahn Ranch com o assassinato de Marina Habe. Bugliosi somente colocou esse caso entre os mais prováveis de seu livro porque o crime aconteceu em Los Angeles enquanto a suposta “Família Manson” estava livre. Enfim, logicamente improvável.

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Uma breve “biografia oficial” de Charles Manson

Para aqueles que não conhecem a história de Charles Manson, o criador do acrônimo ATWA, aqui vai uma breve biografia. É importante reconhecer, porém, que a vida de Manson foi muito polemizada. Isso dificulta muito separar o que são fatos e o que são mitos. Portanto, chamamos essa breve biografia abaixo de “biografia oficial”, uma vez que ela é baseada no que se tornou mais conhecido e aceitável como “realidade” – pelo menos pela mídia e a maioria das pessoas. Em momento algum sugerimos que a história abaixo é inteiramente fatual. Quando possível, citações do próprio Manson serão utilizadas para dar credibilidade aos fatos.

Charles Milles Maddox Manson, nascido em Cincinnati, nos Estados Unidos, em 11 de novembro de 1934, se tornou conhecido no final da década de 1960 por ser uma figura particular relacionada a um grupo de jovens que cometeu vários assassinatos, entre eles o da famosa atriz de Hollywood, Sharon Tate, esposa do diretor de cinema Roman Polanski.

Charles Manson com 14 anos de idade

Charles Manson com 14 anos de idade

Filho de uma jovem mãe com problemas familiares e um pai ausente, Manson passou a ser um freqüentador assíduo de reformatórios juvenis em diversas regiões dos Estados Unidos. “Eu não tinha mãe e eu não tinha um pai. Aonde você vai quando você não tem uma família?” disse Manson, explicando a sua infância nos reformatórios. Ainda quando criança, ele foi entregue a um abrigo de crianças por sua própria mãe. Esse foi o começo de uma infância conturbada. Entre suas diversas saídas e fugas dos reformatórios, Manson foi preso algumas vezes pelos crimes de falsificação e pequenos furtos.

Manson em meados de 1960

Manson em meados de 1960

Em 1964, aos 30 anos de idade, Charles Manson acabava de cumprir uma pena de dez anos quando foi parar no centro mundial da cultura hippie: Haight-Ashbury, um distrito da cidade de São Francisco. Manson se considerava um “hobo”, termo em inglês usado para designar os migrantes sem lar fixo, que vagavam pelo país comendo do que encontravam e dormindo onde se sentiam cansados. Fora da prisão, Manson acabou por se instalar na região de Haight-Ashbury, e tornou-se conhecido entre os círculos de jovens hippies. Manson era um excelente compositor musical, e vivia com seu violão pelas ruas de São Francisco. No auge da contracultura, Manson se tornou uma figura conhecida entre os jovens, que o seguiam para conhecer a sua música e seus costumes peculiares.

Foi tocando as suas músicas nas esquinas de Haight-Ashbury que os jovens hippies adotaram Manson como um ícone. É importante deixar claro, porém, que Manson nunca se considerou um hippie. “Eu era um beatnik na década de 1950, antes de os hippies existirem. Eu dancei ao som de Acapulco, e eu fumei Acapulco antes de vocês saberem o que isso era. E eu vivi nas tumbas [...] enquanto vocês iam para a escola. Você vê? Eu vivo em outro mundo. Eu vivo no mundo das pessoas das ruas”, disse Manson em uma entrevista na década de 1980. Manson saiu da prisão e voltou ao “mundo de fora” no auge da cultura hippie, e pouco sabia sobre como as coisas haviam mudado durante o longo período em que ele permaneceu isolado da sociedade. Foi com a sua música que os hippies abraçaram Manson.

A "Família Manson" no Spahn Ranch

A "Família Manson" no Spahn Ranch

Em função de troca de favores, Manson e seus jovens amigos hippies conseguiram um local para morar próximo a Los Angeles. Eles se alojaram no Spahn Ranch, um rancho onde foram gravados filmes famosos de faroeste, como Duelo ao Sol, e diversas cenas de séries de TV, como Bonanza e Zorro. Um cenário de cidade do oeste permaneceu instalado no rancho durante a estadia de Manson e seus amigos na década de 1960. O Spahn Ranch recebeu esse nome de um fazendeiro, George Spahn, que comprou a propriedade em 1948 e lá vivia em 1968, quando Charles Manson apareceu procurando um local onde pudesse morar. O Sr. Spahn permaneceu morando no local junto com Manson e seus amigos. Em troca de o grupo ajudar o já debilitado Sr. Spahn com o trabalho puxado do rancho, eles puderam se hospedar em uma das casas do local.

Mais de um ano depois, em 9 de agosto de 1969, um grupo de amigos de Manson invadiu uma casa alugada pelo diretor de Hollywood, Roman Polanski, em 10050 Cielo Drive, na região de Bel Air de Los Angeles. Os jovens assassinaram a esposa de Polanski, Sharon Tate, e mais quatro amigos do casal. As vítimas foram baleadas, esfaqueadas e espancadas até a morte, e o sangue delas foi usado para escrever mensagens nas paredes e porta da residência. Uma das escrituras foi “Pig” (”porco”, em inglês). Na noite seguinte, o mesmo grupo invadiu a casa de Rosemary e Leno LaBianca, matando os dois de maneira semelhante. As mensagens escritas na parede da casa com o sangue das vítimas dessa vez foram “Helter Skelter“, “Death to Pigs” (“morte aos porcos”) e “Rise” (“levante-se”). Os assassinatos de Sharon Tate, seus amigos e do casal LaBianca pela ficaram conhecidos como Assassinatos Tate-LaBianca.

Porta da casa de Roman Polanski com escritura "Pig"

Porta da casa de Roman Polanski com escritura "Pig"

Segundo a acusação e a “história oficial”, baseados em testemunhos dos amigos de Manson que cometeram os crimes, os assassinatos teriam sido planejados por Charles Manson. O objetivo seria começar uma guerra que, segundo a teoria, seria a maior já travada na terra, denominada “Helter Skelter“. A “história oficial” indica que esse nome corresponde ao título de uma música dos Beatles onde haveria uma quantidade de mensagens subliminares. Charles Manson, porém, já explicou em diversas entrevistas que para ele “Helter Skelter” significava somente “confusão” – era o que ele ouvia na música dos Beatles, barulheira e berros, e o que ele via nas ruas dos Estados Unidos. Durante o julgamento do caso, a acusação formalizou uma história em que, para Manson, “Helter Skelter” seria uma guerra entre negros e brancos, em que os brancos seriam exterminados da Terra. Nesse contexto, ao enviar seus amigos para cometer os assassinatos, devido ao caráter racista dos Estados Unidos, algum negro seria acusado pelos assassinatos, o que faria com que os confrontos explodissem pelas ruas. Como Manson e sua “família” eram todos brancos, planejavam esconder-se em um poço, supostamente denominado por Manson como “poço sem fundo”, em algum lugar no deserto californiano, assim que a suposta guerra começasse.

Linda Kasabian, que denunciou Charles Manson

Linda Kasabian, que denunciou Charles Manson

Linda Kasabian, uma das integrantes da comunidade hippie e participante das duas noites dos assassinatos, depois de cerca de um mês resolveu fugir e denunciar Charles Manson e os outros integrantes à polícia, além de depor contra eles em seu julgamento. Segundo Kasabian, ela não concordava com os assassinatos, apesar de ter participado e ter permanecido com os assassinos em Spahn Ranch nos dias seguintes. Ela conseguiu um acordo com a acusação, o Estado de Los Angeles, para testemunhar contra Manson em troca de imunidade e uma nova vida, com nova identidade para ela e sua filha recém-nascida e uma pensão do governo. Os depoimentos de Kasabian foram vitais para a condenação de Manson, uma vez que ela testemunhou que tudo havia sido planejado por ele, que seria uma espécie de líder espiritual da comunidade. Sem o depoimento de Kasabian, dificilmente Charles Manson seria condenado.

Charles Manson é preso em 1969

Charles Manson é preso em 1969

Manson, então com 37 anos, foi acusado de seis assassinatos e levado à Justiça, juntamente com Charles ‘Tex’ Watson, Susan Atkins, Patricia Krenwinkel e Leslie Van Houten. Embora acusado de líder da “Família Manson”, como o grupo de amigos se tornou conhecido após o escândalo, ele alegou não ter participado pessoalmente de nenhum dos crimes. Manson declarou durante o julgamento o seu ódio profundo pela humanidade, chamando os membros de sua “família” de “rejeitados pela sociedade”. “Eles são as suas crianças. Eu não as criei, vocês as criaram. Elas fizeram o que vocês ensinaram a elas”, disse Manson durante o julgamento. A promotoria se referiu a ele como “o homem mais maligno e satânico que já caminhou na face da Terra”, e o quinteto foi sentenciado à morte em 1971. Mas com a mudança nas leis penais do estado da Califórnia em 1972, a pena de todos foi alterada para prisão perpétua.

Charles Manson em 2009, mais de 60 anos em prisões

Charles Manson em 2009, mais de 60 anos em prisões

Enfim, Manson esteve em reformatórios e prisões desde os 9 anos de idade. Hoje, com 74 anos, ele passou mais de 60 anos da sua vida em centros de detenção. Ele permanece encarcerado na Corcoran State Prison, na Califórnia, em uma unidade especial de isolamento da penitenciária. Sua última tentativa em audiência para libertação condicional, obviamente negada, foi em 2007. A próxima será em 2012.

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