Os poderes dos animais são intensos e reais. No entanto, eles não são valorizados ou mesmo reconhecidos pela sociedade moderna como tendo algum valor ou significado. Na verdade, eles são geralmente descartados como mera superstição. Aqueles que reivindicam respeito a essas qualidades inerentes (que alguns chamam de dons e bênçãos dos animais) são rotulados de várias formas como primitivos, pagãos, bruxos, xamãs, desviantes sociais, e pervertidos – sexualmente e espiritualmente. Em outros casos, são rotulados simplesmente de insanos.
Pessoas que apreciam os poderes dos animais, muitas vezes subliminarmente, não apenas sonham com certos animais, mas também os reverenciam. Elas veneram esses animais porque eles fazem parte da totalidade e da santidade divina da criação. Que algumas criaturas são domesticadas e vistas como criações humanas importa muito pouco, porque sua santidade permanece, exceto para aqueles que continuam a percebê-los de outra forma.
Um mito celta fala o seguinte: “Aquele que beijar uma salamandra não será ferido pelo fogo”. Esse fragmento folclórico refere a uma época quando os seres humanos viviam muito mais próximos da natureza, como as comunidades rurais e os caçadores-coletores da velha Europa. Nesse caso, beijar uma salamandra não se tratava de uma busca pelo poder que o homem poderia vir a alcançar, mas sim de um simples ato de reverência e adoração. Em outras palavras, apenas os cegos irão se importar se o beijo da salamandra é refutado cientificamente ou medicamente. A diferença entre a realidade material e realidade e espiritual é uma questão de grau, e não de natureza ou racionalidade. Mas essa questão, que é intuitiva e empática, é rejeitada como ilusória – o mundo dualista da ciência cartesiana e da medicina mecanicista.
Os poderes da natureza – das rochas, das árvores, dos animais – foram muito celebrados por nossos antepassados. Eles eram certamente mais sensatos, mas não mais primitivos do que nós. Eles não almejavam o poder de controlar e explorar a vida e seus processos e elementos como nós, os supostamente “mais civilizados”, fazemos. Mas por quê? Talvez porque eles fossem menos inseguros, menos numerosos do que nós, e certamente não dependentes da tecnologia para desesperadamente explorar os recursos que a natureza oferece.
Alguns se referem a essa época dos nossos antepassados como a nossa Era Dourada. Foi durante essa época, quando os seres humanos eram essencialmente caçadores-coletores, que inicialmente se reconheceu o poder dos animais e da natureza – bênçãos e dons transmitidos de uma geração para a outra em mitos e lendas, posteriormente romanceados, analisados objetivamente, e descritos como paganismo, como animismo supersticioso, como totemismo primitivo, irracional e sem sentido.
Nos dias de hoje, retornar a essa visão de mundo ancestral de respeito e reverência pelos poderes, bênçãos e dons dos animais é se tornar um herege, um seguidor da ideologia e idolatria pagã e, portanto, um adorador do Diabo. Mas o Diabo é Pã, o deus pagão de chifres que vigia as criaturas selvagens, e que ataca aqueles que estão separados da ordem natural e que, portanto, temem tudo o que é selvagem (incivilizado), bestial (subumano), e aparentemente irracional.
Os animais incorporam a qualidade de autenticidade, o seu reino servindo de espelho da nossa própria falta do mesmo, refletindo nossos artifícios, ilusões e egoísmos. Começar a entender e aceitar as cobras e aranhas e ver sua divindade intrínseca e seu lugar dentro do todo da vida é começar a aceitar a si mesmo. Mas algumas crianças são ensinadas a ter medo, desprezo, e a destruir tais criaturas. Raramente elas aprendem a reverenciar e compreender profundamente os animais. Por conseguinte, o seu próprio lugar dentro do todo não pode ser realizado.
Os animais expressam emoções de forma muito similar aos nossos sentimentos e modos de expressão. Eles gritam e se contorcem quando sentem dor, e fecham os olhos com profunda satisfação de contentamento. Nós também, e nessa troca de estados subjetivos e modos de expressão, os animais refletem nossa própria natureza animal.
Quanto mais claramente observamos esse espelho, limpo das cinzas do karma e do egoísmo humano, maior é o nosso acesso aos poderes dos animais. E se fosse para olhar para os animais refletidos nesse espelho, o que veríamos? O poder e a aura ártica do urso polar, a vontade e a sabedoria do lobo, a agilidade e a consciência do veado. Mas quando olhamos para nós mesmos nesse espelho, o que vemos? Devemos pensar seriamente nisso.
Ao utilizar os poderes dos animais, podemos reaprender a sermos nós mesmos, autênticos e naturais. Quando comparamos a graça, a perfeição e a dignidade dos animais com a nossa própria imagem, vemos a dissonância e contemplamos a realidade da nossa inferioridade.
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